“Amor se escreve assim...”.
Conheci D. Benedita há cerca de dois anos, ela é a espirituosa avô de um amigo muito querido, e o tipo de criatura que a gente guarda no coração logo que conhece, para nunca mais tirar. Ela e seu João, seu esposo, foram casados durante cinqüenta e quatro anos, mas infelizmente, há pouco mais de um mês seu João deixou-nos, acho que foi iluminar outras almas com a generosidade do seu sorriso.
Desde o seu falecimento D. Benedita, se recusa simplesmente a arrumar a cama, coisa que anteriormente ela não permitia a ninguém, e por medo dos seus motivos, ninguém tinha coragem de lhe questionar o por quê?
Certo dia, conversávamos tranqüilas sob sombra do velho abacateiro, lugar preferido nas tarde do S. João, quando D. Benedita começou a falar, e foi como se falasse com ela mesma: _Durante mais 30 anos eu o João tínhamos uma mania, uma coisa que era só nossa, sempre que nos levantamos, tínhamos o cuidado de arrumar a cama, nenhum dos dois gostava de vê-la desarrumada, era tão natural fazer aquilo, eu retirava os lençóis, depois os alisava, e quando preparava-me para prende-los na borda do colchão, o João sempre segura a outra ponta, para que o lençóis não escapassem quando eu os puxasse, sempre, sempre, estavam lá a suas mãos para me apoiar, agora como eu posso alisá-los ou mesmo estende-los, se eu sei, eu sei que as mãos dele não vão estar lá para segurá-los...Não vão estar...
Escrito por Analycorrea às 21h44
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E são as flores para a alma,
Os versos das emoções,
Às vezes pedidos de calma,
Outros de exclamações.
Tristeza para alguns,
Felicidade para muitos,
Às vezes são o início,
Uma demora no olhar,
A simplicidade do afeto,
Um amor há desabrochar,
Também são às vezes,
Um mero gesto de culpa ou de exaltação,
A mais dura despedida, ou mesmo,
O escandaloso findar da paixão.
Elas, não questionam se são belas,
Verde, brancas, amarelas,
São sempre isentas de dolo,
De maldade ou desconsolo,
Dos males das intenções,
E nelas há esperança desmedida...
Esquisita...A beleza visceral.
Doam-se elas, mal interrompe o sol,
Ou mesmo a lua, dia após dia,
Ano após ano, vento após vento,
Estação após estação.
Não conhecem a dor ou o tempo,
Não lhes importam as direções,
E são elas, como as pessoas,
Semeadas em nossas estradas,
Singulares, destemidas,
Extraordinárias,
Partem é claro, é a vida,
Mas suas cores, suas peculiaridades,
Aquelas que nos guiam,
Que nos modificam, que nos edificam,
Estas, nunca se vão... Nunca se vão...
Escrito por Analycorrea às 14h23
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Um dia nos encontraremos por ai...
Numa saudade qualquer,
E meus olhos procurarão os teus,
E os teus olhos procurarão os meus,
E então seremos apenas estranhos,
Almas perdidas no limbo,
Na extensa terra das nebulosas emoções.
Tudo estará no passado,
No velho quadro na parede,
As cores, as alegrias, a intimidade,
E há me incomodar,
Este certo amargor que teima em meus lábios,
Na curva do sorriso, amargor que persiste,
Que resisti ...Ao truculento balanço dos anos.
Para que entâo, tornar a este cais,
Do qual lhe acenei há muito,
Minha última vez,
Do que me valem as novas portas abertas,
Se com você eu só conheci dois caminhos:
O do sentimento mais intenso deste ardido coração,
E também, o de sua maior tristeza...
Escrito por Analycorrea às 20h27
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“Brasileiro...”
Eu ainda me recordo do último voto obrigatório, sem saudades é claro, lembro que eu nem fui, e o pior é que não me envergonho em dizer, paguei uma multa meses depois, era como se eu não fizesse diferença, menos ainda a minha opinião, pois a história sempre se repetia, anos após ano, década após década, as mesmas faces, as mesmas promessas, a hipocrisia passando de pai para filho, com as mesmas mentiras, manchando nossos sonhos, nossa fé, nossa dignidade.
Lembro-me de quando tudo mudou, foi no ano de 2006, foi como se todo brasileiro cansado de pensar que não fazia diferença, o fez, e a grande massa finalmente se apercebesse do seu papel, do seu direito, e se assoberbasse diante da própria passividade, e resolvida toda, numa campanha silenciosa, forjada no âmago, nos olhos, nos brios de cada brasileiro, brasileiro este, que ao fitar-se no espelho finalmente despertasse para o seu valor, findando de vez com a máscara da democracia, aquela mesma, que o cegara por anos e foi ai, neste momento que ocorreu o grande êxodo e ninguém votou... Ninguém, nem os próprios políticos, em minha opinião, faltou-lhes coragem. Não houve motins, nem lutas, nem campanhas mirabolantes, as praças permaneceram vazias, quietas, abandonadas, nem mesmo os cara-pintadas foram às ruas, muito menos as urnas, e o país parou... Parou... Assim, bruscamente e foi como se alguém de repente puxasse o freio...
E fez-se o caos, o dólar subiu, o FMI se afligiu, políticos enfartaram, foi a maior concentração de enfarto do mundo... As forças armadas foram convocadas, mas não tiveram o que fazer... À quem enfrentar, como oprimir a grande massa, se ela já não se oprimia, e nem se permitia ser outra vez enganada ou vencida...
Os grandes canais de TV, jornais, as revistas, os formadores de opinião, não souberam o que estampar e muito menos onde fora parar, a tal “maleável” opinião. E as edições não saíram... Não sabiam eles, o que dizer, o que pensar, mas o povo sabia, e foi como se houvesse um grande golpe, talvez o pior de todos, o silêncio, que nasceu e se estendeu, e transformou-se num grito tão imenso, mas tão imenso, que a própria terra acordou, para um tal povo brasileiro, tão humilde e hospitaleiro, que se pensava que era tolo, quando era apenas verdadeiro...
E quando as TVs, os jornais, os carros nas ruas, e tudo mais, dias depois, noticiaram que o congresso e o senado criaram, o voto extraordinário, ou seja, o verdadeiro voto democrático, aquele que não obrigava ninguém, que não oprimia, mas que era a própria escolha, a verdadeira escolha, o tal livre arbítrio, o qual nós brasileiros, sempre ouvíamos e ouvíamos falar, mas conhecer que é bom, que nada.
E criou-se neste dia, nesta data tão honrosa, um novo tipo de político, do tipo que já não promete, que não insinua, que não verbaliza, do tipo que realiza, que converge, ato e realização, bem do tipo que se quer votar, que se quer apoiar, assim, daqueles que se acredita, como eu o fiz agora, após horas numa fila, e as filas, elas se estendem, vão tomando quarteirões, insinuando-se pelas ruas... E não há pressa, pressa nenhuma, só o brilho da vontade, da sincera felicidade, tão comum ao brasileiro, brasileiro este, que finalmente aprendeu, que o maior riqueza do Brasil, é: O brasileiro... O brasileiro.
Escrito por Analycorrea às 14h45
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