“Lourdes...”
Sempre acreditei que dignidade é o que separa fracos e fortes, pobres e ricos, é aquela chama no fundo dos olhos, qual a adversidade não tem força para apagar, mesmo que ela teime e teime, e não se engane, eu não falo de orgulho, nem de vaidade, falo da capacidade e da coragem de se erguer após uma queda, mesmo sabendo que se cometeu um erro ou que se foi vencido.
Quando eu olhava para minha Tia Lourdes, é exatamente nesta palavra que eu me refletia, é bem verdade, que a história dela não difere da de muitas outras mulheres que eu conheci e que conheço, mulheres fortes, batalhadoras, guerreiras, persistentes, de almas nobres, mas a dela, em especial na minha vida, sempre foi um diferencial, um aparte, pois quando às vezes, diante de minhas próprias derrotas ou dificuldades, eu me apego ao pensamento do fracasso, exatamente neste momento, me achega o brilho dela, o de sua fé inabalável, de sua teimosia quase infame em não conformar-se, seja com as maledicências da vida ou das pessoas, em não dobrar-se a essa a tal letargia, que por vezes nos deixando cegar.
Ela, mãe de cinco filhos, marido alcoólatra, foi abandona por ele, quando as crianças ainda mal caminhavam, trabalhou na roça, no corte da cana, era do tipo de pessoa que levava o caldeirão de comida vazio para o trabalho, para que os filhos em casa tivessem o que comer, depois, quando estes já maiores, por anos e anos serviu a um casal de médicos, que lhes foram muito generosos, em especial, quando o filho mais velho, após um acidente, foi vítima de um dano cerebral permanente, ela própria há coisa 11 anos foi abalada por um derrame cerebral, o qual a deixou com o seu lado esquerdo paralisado, mas não pense que isso a deteve, ela nunca aceitou o papel de vítima, nunca, e após muita terapia, embora ainda com muitas limitações, ela cuidava de si de outros, lavava, passava, cozinhava, fazia o que era necessário.
Em dezembro de 2003, seu filho mais velho faleceu, deixou-nos com este vazio imenso, no último sábado, ela também seguiu com a sua luta, mas agora está ela olhando para outros horizontes, talvez mais justos, mais serenos, não vai estar mais aqui para me doar o seu sorriso, seu colo, seus conselhos, mas quem ela foi, permanecerá, será eterna no brilho dos olhos de suas netas, na curva de seus sorrisos, em mim, quando a vida me desacreditar ou quando o meu frágil coração precisar, estará lá, sempre estará, a sua voz mansa e doce, há me encorajar ...Me encorajar...
Escrito por Analycorrea às 08h17
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