Ela ficou em silêncio, 

No peito a alma sangrava, 

A noticia ecoando nos tímpanos,

Num nó na garganta empolada

“Não é verdade... Não é, não poderia”.

Dizia a si mesma, se repetia.

Ligou a Televisão e logo noticiaram,

Em nota pequena, sem importância.

Assim como quando se perde um animal de estimação.

Ela não se conformou, como poderia.

Quis ir ao cortejo, ver o féretro descendo à terra.

Olhar a lápide,  e lá estava,

Escrito em letras miúdas, sem grande admiração:

Aqui jaz um Amor verdadeiro.

Talvez o último, aqui jaz....

Ficou olhando o concreto...Frio,

Tão frio, como lhe pareceu todo o resto.

Precisava de um motivo, uma razão,

Um mero e simples por quê?

Mas todos  apenas repetiam:

_Eu nem sabia que ele ainda existia!

Disseram-lhe que ele morreu de inanição,

Que o pobre secou feito um deserto.

Mas ela soube no ato, ela soube,

Ele morreu de tristeza,

Do mais cruel descrédito.



Escrito por Analycorrea às 08h44
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 “Voltando pra casa...”

 

Maria sempre sonhou em conhecer o mar, emocionava-se toda vez que o via na televisão, acreditava ela, que o mar era como Deus, infinito, e conhecê-lo, seria como conhecer o próprio Deus. Embora amasse Maria, Pedro, achava que ela era meio doida, do tipo que fala coisas sem sentido, do tipo que nem dá para se levar a sério, assim como quando ela repetia que era feliz, feliz como? Se ela ainda lado morasse naqueles lugares do Rio, que vemos em cartões postais, nas novelas da televisão, mas ser feliz, morando lá no morro, no meio daquela miséria, daquelas gentes sem esperanças, como alguém poderia ser feliz..

O interessante, porém, é que mesmo que ele não admitisse, ela era, era mesmo feliz, tão feliz que quando ele estava ao lado dela, sentia-se feliz também. Achava até que estava se deixando convencer, por aquelas coisas que Maria repetia sempre, “felicidade mora dentro da gente". Acreditava Maria, que as pessoas não eram felizes tendo tudo, mas sim, sendo felizes com o que possuiam...Na verdade ela enxergava felicidade em tudo.

Pedro achava que ela era meio doida, e no fundo acreditava que aquilo tudo era grande tolice, uma imensa perca de tempo, mas até ele, de vez quando, em especial quando ninguém estava olhando, até que gostava de sentir um pouco daquela felicidade doida da Maria, era  como sentir-se vivo, mas desde que ninguém soubesse.

A vida tem um jeito estranho de nos msotrar as coisas, prova disso, foi como tudo mudou de repente, lembra-se que fora numa tarde de abril daquelas bem comuns,  quente, ensolarada, ao chegar do trabalho, Pedro ficou sabendo que ela, a Maria, horas antes, enquanto aguardava no ponto de ônibus fora atingida por uma bala perdida, aconteceu no Rio, mas poderia ser em qualquer outro lugar, pois não são as balas que estão perdidas. Disseram-lhe, que ela nem sofreu, morreu na hora, como se isso fosse lá algum consolo, logo estava na televisão, virou estatística, rosa vermelha na areia branca, mas ele, ainda choque, quando viu aquilo tudo, soube na hora, que Maria nunca seria parte daquilo, muito menos estatísticas, ela era grande demais para ser apenas um número, mesmo que fosse uma rosa.

Não pensou duas vezes, não foi nem mesmo ao funeral, encheu-se de coragem e foi ver o mar, conhecer o tal Deus da Maria, talvez até pedir uma explicação, no fundo mesmo, quis ser os olhos dela, e chegando lá, quando sentado na areia se percebeu chorando, nem se importou, em verdade ele até riu, queria mesmo era que o vissem, ele doido feito a Maria, e riu muito enquanto chorava, pois soube na hora, na hora em que viu o mar, que  não eram dele aquelas lágrimas, não eram não, mas sim da Maria, da sua doida Maria,  que chorava,  chorava... Feliz da vida, por ter voltado para casa.



Escrito por Analycorrea às 10h57
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