
“Brinquedo novo...”.
Estava lá, primeira página do jornal de maior tiragem nacional, parece exagero, eu sei, mas foi mesmo um escândalo, houve quem achasse uma indecência, com direito ao sinal da cruz e tudo mais, e estava lá, a coisa toda, as vírgulas, os pontos, as reticências, escancarando o preto no branco, como se fosse normal um beijo daqueles, foi sim...Um puta beijo, daqueles de se tirar o fôlego, o chão, os pensamentos, então normal? Só se para os outros, oras! Foi, e foi isso o que ela pensou. E fechou-se em casa, desesperada, trancou as janelas que dormiam despreocupadas, obstruiu as portas, vedou o vento, tirou as baterias do relógio e calou o tempo, cegou a TV, calou o rádio, deixou desmemoriado o computador, mas ele, ele mereceu, aquele maldito traidor, diria mesmo, ordinário, ele, que quando conectado, levou a notícia toda aos quatro cantos, coisa que ninguém sabia, linhas dela, imprecisas, as quais criou para não dizer, para não ouvir, para não viver, como este amor que ninguém sabia, e do qual ela mesma desviava os olhos, talvez para não se encontrar, e se descobriu correndo pela casa, ensandecida, desesperada, sem ar, sem chão, sem asas, sem desculpas, sem perdão, sem estar em verdade, arrependida. E o que fazer com os olhares, pensava ela, com os dedos que a apontavam, as línguas que a diziam, que cochichavam, que sabiam, do medo que ela sentia, medo em admitir que queria, que amava, que vivia, logo ela que sempre zombara dos apaixonados, daqueles que trocavam olhares, que acreditavam nas cores, que enxergavam sabores, que aceitavam as dores e ainda assim, seguiam, mesmo quando tudo parecia estar errado, ela que sempre negou tudo, como nega agora, e por isso se apavora, pois reconhece que está perdida, abalada, vencida, sente até esperanças, é uma pobre criatura, que agora, acreditem, crê na sutileza da vida. E se dá conta, quando em frente ao espelho, que todo tagarela e sabichão, a revela num sorriso, cúmplice e de satisfação, e de repente ela já não se recorda de todo aquele mundo que há pouco tanto a incomodava, se percebe uma adolescente que masca chicletes em frente à TV... Maravilhada, extasiada, feliz demais para se arrepender. Mesmo que o faço depois, e ri da notícia estampada, oras, o culpado fora o destino, ela mesma não tivera culpa de nada, nadinha mesmo, também o que poderia fazer. E o começo, foi mais ou menos assim: _ Oi, quer tomar um café? Ela foi... Claro, também como não poderia. Ela adora café!
Escrito por Analycorrea às 13h30
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