
“Vagalumes”
Ontem mesmo ela sorria, debruçada em sua janela, Ouvindo o sol despedir-se em sussurros, ainda ontem, Ela se encantava com o acendedor de lampiões, E as ruas tantas que ele iluminava, Expondo as muitas solidões e seus tão tristes lampejos. Ainda ontem, encantava-se ela,
Com os garotos e suas calças suspensórios, Com a boêmia dos bares, e o choro dos violões, Os beijos melindrosos, furtados no portão, Com a alegria esfuziante das Marias-sem-vergonha. Que há tudo coloriam, enquanto saltavam dos vasos. Ainda ontem, aquecia-lhe o sopro da velha locomotiva, E as suas idas e vindas, e as suas tantas paradas, O maquinista acenando-lhe, deixando-a reconfortada. Encantava-se ela com o afeto das mariposas, Aos lampiões indiferentes, e o contraste de toda aquela gente, As quais sem conhecer, ela tanto e tanto gostava, As roupas engomadas e os vestidos de chita, Aquela pressa disfarçada dos beijos de despedida. Debruçada em sua janela, ela se encantava, Desejando que fossem asas os braços que carregava, Para assim, ir além das aquarelas, e das terras tão singelas, Que em sua mente criava. Ainda ontem ela sonhava,
Com um vento que lhe seria propício, Que lhe seria o inicio, de suas tantas jornadas, As estrelas como bússolas suspensas, E a lua, como dama emoldurada. E hoje ela pobre se pergunta,
Imensamente angustiada, Que foi feito do seu encanto, e de sua alma enfeitiçada, Que foi feito da sua utopia, que ela tanto e tanto celebrava, Será que se perdera nas curvas, ou se fora com as enxurradas, Ou talvez, se mudara para a lua, para não ser incomodada. Mas ela... Ela não sabe, muito menos compreende, Como de repente, se tornara toda gente, E se questiona, se amarga, se pressiona, Como fora que de repente, Esquecera-se, assim, tão completamente, De como encantar os vaga-lumes...
Escrito por Analycorrea às 15h02
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